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Dialeto expirado: o ponto final da relação

Quando acaba uma relação, morrem também todas as palavras inventadas, os símbolos resignificados, a gramática particular. O luto é sentido na garganta. Naquela hora que engole seco porque ninguém mais vai entender se você falar. Pode até começar a ensinar por aí. Mas não é o mesmo: o belo do dialeto dos enamorados é ser único, vivo, criado a dois, para os dois. Soa falso se alguém usar. Chega a ser traição usar o mesmo vocabulário na próxima relação. Dói. Racionalmente já se sabe que acabou, porém, sentir que virou língua morta, é o fim prático do relacionamento. É hora de recomeçar, tudo novo de novo: do oi ao adeus, do ciao ao ciao.

Uma tentativa de versão em inglês (podem me corrigir com carinho):

When a relationship ends, also die every word, every symbol, all the grammar invented throughout of this. Grief is felt in the throat . At that moment when we stop talk because no one else will understand if we say it. You can even start teaching this idiom to someone else. But is not the same: the beautiful of the dialect of love is to be unique, full of life, created by the couple only for them. It looks fake if anyone else use it. It becomes treason use the same vocabulary in another relationship. It hurts. Rationally it’s known that the relationship it’s over, however, feel the end of this language it’s the practical end of everything. It’s time to restart all over again: from hi to goodbye, from ciao to ciao.

Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won’t do
In this life that we live we live we only make do

 

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My next lovoo

No aplicativo de paquera Lovoo existe um perfil com foto e questionário a ser preenchido. Embora exista um mecanismo de verificação por imagem (os modelos-capas-de-revistas fakes não tem vez), para as outras infos não há controle: casados são solteiros, solteiros estão enrolados, enrolados estão seriamente comprometidos… em enrolar mais alguém. O Photoshop pode limpar as marcas do tempo, viajar pra Paris e por um X3 na garagem. Ainda assim, nesse cenário de beleza e riqueza, sobrevivem os ginos-sinceros. Há quem poste a foto do natal, dizendo X, com roupa bonita pra ocasião; quem poste o álbum da última viagem; quem escolhe os melhores selfies do marketing pessoal – no ônibus, no banheiro, no espelho do quarto (desarrumado); quem põe o cachorro, o gato, o periquito.

Quem quiser pode mandar msg. Mas tem que segurar a ansiedade: só continua o papo se o outro responder! Ou pode mandar beijo (na boca, no rosto, no ombro). Ou marcar um coração. E quando dois coraçõezinhos batem mutuamente! Hmmm! Pode render… Papo, risada, raiva, choro, filosofada, sexo, amor, namoro, amizade.

Bem, isso me lembra um espaço de paquera “real”. Contudo, em baladas, barzinhos e festas – onde o encontro se dá voz a voz, cheiro a cheiro, pele a pele – coraçãozinho nenhum irá saltar em balão onomatopaico batendo mais forte pra você ver. Há de se arriscar, botar literalmente a cara a tapa. E arriscando, pode render… Os malas, os fakes, os sedutores, os interessantes e os fáceis estarão igualmente lá. O que surgiu foi um novo meio pra rolar a paquera. Nem melhor, nem pior – digital. Dependerá do uso que se faça dele (vide o príncipe desencantado a procura de suas tinderelas).

Passado X Presente

Antes & depois

Quem vê de fora, imagina que o grande cardápio de pessoas dispostas a se relacionarem promova a variação diária do menu. E onde estariam essas pessoas? O radar identifica que estão próximas. Mas, considerando que nem todo mundo aderiu ao app, o potencial de paqueras por metro quadrado aumenta. Ou seja, se quantidade é o critério, fora do app também estamos ao alcance de muita gente que quer se relacionar (não estão expostas, mas estão por aí). O cardápio existe em toda parte, basta procurar. Quem deseja sair toda semana com alguém diferente, vai buscar em qualquer meio. E faz bem em fazê-lo, não é digno de censura quem age seguindo suas vontades (dentro das normas sociais, claro). Quem busca um namoro também vai filtrar suas escolhas para conseguir o que quer. E assim vai.

Essencialmente, a tecnologia facilita os encontros e a comunicação. Assim como ter claro o que se deseja. Por ora, aprecio nutrir as boas relações, as que não geram falsas expectativas, as que dão espaço pra trocar, ouvir, falar, ficar em silêncio. Enfim… Sei que trabalhamos e fazemos mil atividades ao longo do dia. Não sobra muito tempo para nos dedicarmos ao outro. Mesmo assim damos aquele jeitinho brasileiro! No fundo, sair dando X, excluindo o outro a torto e a direito nos faz merecedores de outro X. Ninguém é alguém na duração de uma olhada pra conquistar. Alguém surge na duração sem hora marcada pra terminar.