Status

Dialeto expirado: o ponto final da relação

Quando acaba uma relação, morrem também todas as palavras inventadas, os símbolos resignificados, a gramática particular. O luto é sentido na garganta. Naquela hora que engole seco porque ninguém mais vai entender se você falar. Pode até começar a ensinar por aí. Mas não é o mesmo: o belo do dialeto dos enamorados é ser único, vivo, criado a dois, para os dois. Soa falso se alguém usar. Chega a ser traição usar o mesmo vocabulário na próxima relação. Dói. Racionalmente já se sabe que acabou, porém, sentir que virou língua morta, é o fim prático do relacionamento. É hora de recomeçar, tudo novo de novo: do oi ao adeus, do ciao ao ciao.

Uma tentativa de versão em inglês (podem me corrigir com carinho):

When a relationship ends, also die every word, every symbol, all the grammar invented throughout of this. Grief is felt in the throat . At that moment when we stop talk because no one else will understand if we say it. You can even start teaching this idiom to someone else. But is not the same: the beautiful of the dialect of love is to be unique, full of life, created by the couple only for them. It looks fake if anyone else use it. It becomes treason use the same vocabulary in another relationship. It hurts. Rationally it’s known that the relationship it’s over, however, feel the end of this language it’s the practical end of everything. It’s time to restart all over again: from hi to goodbye, from ciao to ciao.

Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won’t do
In this life that we live we live we only make do

 

Morrer na praia

“Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele, e da sua garantia que não havia pressa (…). Amor e paciência certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades.  (…) É assim que todo curso de uma vida pode ser desviado – por não se fazer nada. Na praia de Chesil, ele poderia ter gritado o nome de Florence, poderia ter ido atrás dela. Ele não sabia, ou não teria querido saber, que, enquanto ela fugia, certa na sua dor de que o estava perdendo, nunca o amara tanto, ou mais desesperadamente, e que o som da voz dele teria sido seu resgate, e que ela teria voltado atrás. Em vez disso, ele permaneceu num silêncio frio e honrado (…).”

Na praia, Ian McEwan

ChesilEm quantas situações já não desistimos antes da hora? E o quanto essa ação pode influenciar e ter consequências em nossas vidas?  Esse post está na categoria do desabafo porque  o ambiente parece captar as energias dos nossos pensamentos e sentimentos. Ficamos com uma cisma na cabeça e aquilo não sai. Outros estímulos vêm para alimentá-la – um livro, um filme, uma música, uma frase perdida na rua. Foi igual quando vi filme Her. Seria uma sincronicidade.

Na praia é um romance que conta a história de dois jovens ingleses, Edward e Florence, que vão ter sua noite de núpcias. É na década de 60 e eles são inexperientes e inibidos. O ponto de vista de cada um deles é esmiuçado, e a partir daí vamos conhecendo os medos, as inseguranças, o nojo, o orgulho e outros sentimentos que aquele evento provoca. É mostrado também o jogo entre o que é represado, para ser aceito, para não frustrar as expectativas do outro, para enfrentar o desconhecido, e o que é revelado, para se colocar, para mostrar seus anseios, mostrar sua personalidade, mostrar que se é adulto. Mas é mostrado sobretudo o quanto cada um, a sua maneira, ama o outro.

E dá raiva quando eles destroem tudo a partir de um único evento. Eles não se acertam e a comunicação falha entre eles embaça ainda mais o conflito. A “solução” é seguirem caminhos opostos e distantes, o mais rápido possível. O livro dá uma acelerada no tempo (o que dá raiva também…) e o que se nota é que as lembranças dos sentimentos se apuram e não se apagam com o tempo.


 

Opus 18 de Beethoven

Link

Ser tudo que EU quero

Essa semana, a praça do povo virtual chamada facebook, trouxe ao debate alguns textos sobre a nossa atual geração de mulheres. Como esse é um blog de mulheres cismadas, nada mais coerente eu cismar e contribuir aqui com alguns comentários sobre o assunto (convém ler os textos antes).

Seguem abaixo os links para os textos originais:

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer

À espera da geração de mulheres que não se importam com o que os homens querem

Ei, Ruth

A incrível geração de mulheres chatas

 


Hmm ainda não faz sentido… É que não dá pra colocar tudo na mesma panela, tem quem viva no passado, mas tem sim aqueles homens e mulheres que estão vivendo no tempo presente, que se adaptam as (rápidas) transformações do nosso mundo.

Quando comecei a dar aula, me preocupava demais em “agradar” todos os alunos e me angustiava tentando. O fato é que isso é impossível. E na vida também é assim… Daí que por mais que a família, a sociedade, os amores, os amigos esperem sempre algo de mim, eu sou responsável pela minha história. Então não dá pra pautar as minhas ações nas expectativas alheias. Eles vão embora e eu fico, comigo, sozinha. O que não significa ser solitária e não se relacionar com ninguém.

Embora eu não seja a típica extrovertida, adoro conhecer gente do bem. Conheço homens admiráveis que não se encaixam em nada no rótulo de homens que não evoluíram. Não sou, nem quero ser, uma princesa (e quem quer ser, ótimo, que bom que é democrático o negócio). Tampouco ser convencional, seguindo fórmulas ultrapassadas e inúteis de ser a mulher perfeita (falando nisso, revistas femininas e blogs pra macho me dão vergonha alheia…).

Deve ser frustrante tentar ser alguém diferente pra agradar o outro. Porque por mais que o outro caia neste conto, é uma ilusão: o outro gosta de outra pessoa que você mesmo criou.  Agora, é legal quando você age sendo fiel aos seus princípios, seguindo seus desejos, mostrando quem você é, e daí vem alguém de fora apreciar exatamente isso que te faz único, que você ama tanto em você mesmo, não é? Nessa hora, eu percebo o quanto os homens estão mudados e são sim capazes de amar essa nova mulher. São escolhas pessoais. No fundo, ambos buscam o acolhimento, serem aceitos e amados como são. Uma hora cansa usar máscaras o tempo todo. Temos que aproveitar que estamos num tempo e espaço que permite a multiplicidade de escolhas. Quer ser piriguete? Vai. Quer ser mulher independente? Vai. Quer viver em outro país? Vai. Quer ser o cara que trabalha pra sustentar a família? Vai. Quer ficar e cuidar dos filhos? Fica.

O problema é não ligar o sintonizador de canais direito. Quer escutar rock e joga no pagode?! Não vai rolar, fia. Muda!

Status

My next lovoo

No aplicativo de paquera Lovoo existe um perfil com foto e questionário a ser preenchido. Embora exista um mecanismo de verificação por imagem (os modelos-capas-de-revistas fakes não tem vez), para as outras infos não há controle: casados são solteiros, solteiros estão enrolados, enrolados estão seriamente comprometidos… em enrolar mais alguém. O Photoshop pode limpar as marcas do tempo, viajar pra Paris e por um X3 na garagem. Ainda assim, nesse cenário de beleza e riqueza, sobrevivem os ginos-sinceros. Há quem poste a foto do natal, dizendo X, com roupa bonita pra ocasião; quem poste o álbum da última viagem; quem escolhe os melhores selfies do marketing pessoal – no ônibus, no banheiro, no espelho do quarto (desarrumado); quem põe o cachorro, o gato, o periquito.

Quem quiser pode mandar msg. Mas tem que segurar a ansiedade: só continua o papo se o outro responder! Ou pode mandar beijo (na boca, no rosto, no ombro). Ou marcar um coração. E quando dois coraçõezinhos batem mutuamente! Hmmm! Pode render… Papo, risada, raiva, choro, filosofada, sexo, amor, namoro, amizade.

Bem, isso me lembra um espaço de paquera “real”. Contudo, em baladas, barzinhos e festas – onde o encontro se dá voz a voz, cheiro a cheiro, pele a pele – coraçãozinho nenhum irá saltar em balão onomatopaico batendo mais forte pra você ver. Há de se arriscar, botar literalmente a cara a tapa. E arriscando, pode render… Os malas, os fakes, os sedutores, os interessantes e os fáceis estarão igualmente lá. O que surgiu foi um novo meio pra rolar a paquera. Nem melhor, nem pior – digital. Dependerá do uso que se faça dele (vide o príncipe desencantado a procura de suas tinderelas).

Passado X Presente

Antes & depois

Quem vê de fora, imagina que o grande cardápio de pessoas dispostas a se relacionarem promova a variação diária do menu. E onde estariam essas pessoas? O radar identifica que estão próximas. Mas, considerando que nem todo mundo aderiu ao app, o potencial de paqueras por metro quadrado aumenta. Ou seja, se quantidade é o critério, fora do app também estamos ao alcance de muita gente que quer se relacionar (não estão expostas, mas estão por aí). O cardápio existe em toda parte, basta procurar. Quem deseja sair toda semana com alguém diferente, vai buscar em qualquer meio. E faz bem em fazê-lo, não é digno de censura quem age seguindo suas vontades (dentro das normas sociais, claro). Quem busca um namoro também vai filtrar suas escolhas para conseguir o que quer. E assim vai.

Essencialmente, a tecnologia facilita os encontros e a comunicação. Assim como ter claro o que se deseja. Por ora, aprecio nutrir as boas relações, as que não geram falsas expectativas, as que dão espaço pra trocar, ouvir, falar, ficar em silêncio. Enfim… Sei que trabalhamos e fazemos mil atividades ao longo do dia. Não sobra muito tempo para nos dedicarmos ao outro. Mesmo assim damos aquele jeitinho brasileiro! No fundo, sair dando X, excluindo o outro a torto e a direito nos faz merecedores de outro X. Ninguém é alguém na duração de uma olhada pra conquistar. Alguém surge na duração sem hora marcada pra terminar.

A culpas é das estrelas

Hazel é uma paciente terminal. Ainda que, por um milagre da medicina, seu tumor tenha encolhido bastante — o que lhe dá a promessa de viver mais alguns anos —, o último capítulo de sua história foi escrito no momento do diagnóstico. Mas em todo bom enredo há uma reviravolta, e a de Hazel se chama Augustus Waters, um garoto bonito que certo dia aparece no Grupo de Apoio a Crianças com Câncer. Juntos, os dois vão preencher o pequeno infinito das páginas em branco de suas vidas.

http://www.aculpaedasestrelas.com.br

Sucumbi a forte vontade da minha alma de ir ao shopping, tomar um café Mocca na Starbucks e pegar um cineminha. Como o destino é perfeito em seus grandes desdobramentos, a sessão com o Tom Cruise já havia passado, a que podia assistir era “A culpa é das Estrelas”, lá embarquei.
Não preciso aqui falar que a surpresa foi enorme, a minha introdução já demonstra isso, o que quero aqui relatar são todas as sensações que me despertou, todas as emoções que me fez liberar.
O filme é simplesmente fantástico! Enredo, música, atores, atuação, luzes, fotografia, tudo é maravilhoso! Adorável!!! Nada menos que perfeito!!!! … qualquer que seja o erro, este foi amplamente encoberto por todas as mulheres fungando, segurando ou soltando seus choros, seus namorados também não conseguiram se conter, e o cara ao meu lado se abraçou na companheira e choraram os dois abertamente.
O coração se enche e transborda junto com a jornada de Hazel.
O som contagiante do choro começa nos primeiros minutos do filme, quando me vi dentro da tela pela primeira vez, na forma dos pais correndo, tropeçando em si mesmos, batendo nas paredes com as mudanças de direções na casa, ali me vi diante do que sou capaz pelo meu filho, que tudo isso eu faria pelo meu filho e que não devo temer meus sentimentos por ele, que não devo temer não ama-lo tanto quanto ele merece, ou comparar o quanto as outras mães amam e demonstram amar seus filhos, eu faria tudo pelo meu e amo do meu jeito, torto às vezes, mas amo.
As cenas que seguem são referência aos anos de tratamento da personagem principal, então me vi mais uma vez transpor a barreira da ficção e me envolver no sentimento de luta que ela emana, não sou forte como ela. Sei que tenho força dentro de mim, já travei e venci grandes batalhas e poderia cinzelar grandes feitos, mas não os faço, por pura preguiça de fazer, comodismo de uma comodidade atingida e assimilada que me traz uma segurança mentirosa e assim vou ficando…
Senti-me um nada diante da certeza que tantos têm tantos sonhos e não têm tanto tempo para fazê-los, eu aqui com tantos meus, com tanto tempo, com tanta saúde, e sem fazer. O que me fez tomar a muito explicável iniciativa de imprimir o cartaz do filme e cola-lo em minha escrivaninha, está aqui diante de meus olhos um lembrete silencioso para que eu faça por merecer minha vida. Que eu seja feliz, desfaça as falsas amarras e use as tiras para me prender aos meus sonhos.
Como se meu coração já não estive para explodir e minha maquiagem comprometida, o enredo toma o rumo do amor, aquele de princesas modernas, que recebem mensagens no celular, românticas pacas (entenda por românticas mensagens de “Oi”), de príncipes de bom coração que sem explicação avistam você na rua e te desejam como companheiras, para toda a eternidade, sem você se preocupar em usar saltos infinitamente altos ou máscaras de cílios. Somente te amam. Aquele amor que desejo sentir e ser correspondida, de alguém que irá segurar minha mão em todos os momentos, sem medo do que vem pela frente, amor incondicional e admiração.
Tenho toda a fé que irei senti-lo um dia, serei encharcada dele e poderei despejar o meu balde encharcando ele, assim que encontra-lo, assim que me amar e não mais me julgar menor, assim que eu comemorar minhas vitórias, não só as vitórias, o percurso e a superação de cada obstáculo também, assim que eu me encharcar do meu amor por mim mesma.
Todos os outros infinitos rumos da história deixo para vocês acompanharem junto com Hazel nos cinemas, aqui eu conto uma parte e lá estarão mais sentimentos e mais momentos de…