O valor do beijo roubado

confete_carnaval_mulheres2015 Festa, alegria e diversão: essa é a imagem do carnaval. Mulheres e homens celebram a liberdade vestindo suas fantasias prediletas! O prazer está no ar.

Sim. A gente encontra esse clima maravilhoso. E também se depara com alguns velhos problemas – o lado feio da festa. Que muitos escondem, ou fingem não compreender.

Quem nunca viu homens que puxam os braços das mulheres, forçando uma situação? Homens que passam a mão na bunda delas sem consentimento, persistem na investida mesmo depois de dois ou três “nãos” verbalizados por elas?

Talvez você não seja esse homem abusivo – e por não ser assim, acredita que nenhum outro homem o seja. Talvez você não tenha presenciado nada parecido. E aí, você se conforta e ainda coloca em dúvida relatos de mulheres que passam por esses constrangimentos.

Pois bem, lamento informar: os constrangimentos de carnaval existem. E esse lado escuro é bem visível para nós, mulheres. A gente até elabora estratégias para tentar se proteger dos assédios. Dependendo do lugar a gente vai de calça, pra se proteger da “mão boba”. Dependendo do assédio a gente não solta um “não” em alto em bom som, porque o cara pode estar armado. A gente diz que tem namorado, para ver se a pessoa se convence do nosso “não”. A gente diz que é lésbica (!). A gente tem um estoque de respostas diplomáticas pra poder dizer não sem ferir o ego daquele que pode se voltar ainda mais violentamente contra nós.

A gente nunca sabe como ele reagirá a uma negativa de uma mulher em pleno carnaval.

– Sim, estou sozinha. Não, não quero nada com você.
– Mas é carnaval! Se queria ficar sozinha, que ficasse em casa.

Quantas vezes já ouvimos esse diálogo? Precisamos explicar que carnaval não é consentimento automático para qualquer situação? Que lugar de mulher é onde ela quiser, com quem ela quiser? Que o corpo é da mulher? Precisamos explicar sim. Em todos os momentos. Porque ainda existem aqueles que, no auge da festa, tentam roubar beijos. Isto é: beijar a mulher mesmo quando ela não quer. Como se fosse a coisa mais romântica e natural do mundo.

– [chamando o segurança] Tirem esse cara daqui!

– Sorria, é carnaval! Vai reclamar de beijo agora?!? Tá Louca! Tá no carnaval e não quer beijo?

E há quem defenda beijo roubado como uma “liberdade poética” da qual não se pode abrir mão. Essa expressão “beijo roubado” é encontradas em músicas populares, teatro, novela e filmes diversos. Há toda uma cultura que envolve a situação de “beijo roubado”, expressão que hoje é empregada até para se referir a beijos consentidos!

Vejam só que interessante! Mudam os costumes, mas a palavra está lá, guardiã de um comportamento que já deveria estar morto e enterrado. Parece que o “beijo roubado” é uma cultura tão valorizada, que mesmo quando ele nem é tão roubado assim, a expressão continua existindo, como uma espécie de última trincheira. Parece que já nasceram aprendendo que beijar roubado é que é bom, e não querem desaprender isso.
Desconfio que ainda não sabem que beijo consentido tem muito mais valor. Hoje, em 2015, tem muito mais valor um beijo livre e consentido.

Mas isso é uma cisma minha. Cismei com o “beijo roubado” em si – que é crime, por sinal. Cismei com o termo romantizado, que não é crime, mas não o utilizo. Nunca gostei deles. Se eu pudesse eu me livraria dos dois. Agora se tem gente com dificuldade de abrir mão de utilizar a expressão “beijo roubado” para se referir a um beijo livre e consentido, imagina como deve ser duro abrir mão desse (mau) comportamento.

Em tempo:

1. As mulheres conseguiram duas grandes vitórias neste carnaval: pressionaram e retiraram a propaganda da Skol de circulação e retiraram a propaganda do Ministério da Justiça. Ambas foram consideradas inadequadas para o público feminino, que já sofre diversas violências no período de carnaval.


2. Roubar beijo é crime: Homem foi condenado a 7 anos de prisão por beijar uma mulher à força no carnaval 

3. Texto importante para ilustrar o quanto é complicado dialogar sobre esse tema com algumas pessoas: Carnaval e a trivialização da cultura de violência contra a mulher

4. É evidente que mulheres também podem cometer o crime de roubar beijos. Mas este é um comportamento pouco frequente, se levarmos em conta qualquer estatística ligada à violência.

Link

Ser tudo que EU quero

Essa semana, a praça do povo virtual chamada facebook, trouxe ao debate alguns textos sobre a nossa atual geração de mulheres. Como esse é um blog de mulheres cismadas, nada mais coerente eu cismar e contribuir aqui com alguns comentários sobre o assunto (convém ler os textos antes).

Seguem abaixo os links para os textos originais:

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer

À espera da geração de mulheres que não se importam com o que os homens querem

Ei, Ruth

A incrível geração de mulheres chatas

 


Hmm ainda não faz sentido… É que não dá pra colocar tudo na mesma panela, tem quem viva no passado, mas tem sim aqueles homens e mulheres que estão vivendo no tempo presente, que se adaptam as (rápidas) transformações do nosso mundo.

Quando comecei a dar aula, me preocupava demais em “agradar” todos os alunos e me angustiava tentando. O fato é que isso é impossível. E na vida também é assim… Daí que por mais que a família, a sociedade, os amores, os amigos esperem sempre algo de mim, eu sou responsável pela minha história. Então não dá pra pautar as minhas ações nas expectativas alheias. Eles vão embora e eu fico, comigo, sozinha. O que não significa ser solitária e não se relacionar com ninguém.

Embora eu não seja a típica extrovertida, adoro conhecer gente do bem. Conheço homens admiráveis que não se encaixam em nada no rótulo de homens que não evoluíram. Não sou, nem quero ser, uma princesa (e quem quer ser, ótimo, que bom que é democrático o negócio). Tampouco ser convencional, seguindo fórmulas ultrapassadas e inúteis de ser a mulher perfeita (falando nisso, revistas femininas e blogs pra macho me dão vergonha alheia…).

Deve ser frustrante tentar ser alguém diferente pra agradar o outro. Porque por mais que o outro caia neste conto, é uma ilusão: o outro gosta de outra pessoa que você mesmo criou.  Agora, é legal quando você age sendo fiel aos seus princípios, seguindo seus desejos, mostrando quem você é, e daí vem alguém de fora apreciar exatamente isso que te faz único, que você ama tanto em você mesmo, não é? Nessa hora, eu percebo o quanto os homens estão mudados e são sim capazes de amar essa nova mulher. São escolhas pessoais. No fundo, ambos buscam o acolhimento, serem aceitos e amados como são. Uma hora cansa usar máscaras o tempo todo. Temos que aproveitar que estamos num tempo e espaço que permite a multiplicidade de escolhas. Quer ser piriguete? Vai. Quer ser mulher independente? Vai. Quer viver em outro país? Vai. Quer ser o cara que trabalha pra sustentar a família? Vai. Quer ficar e cuidar dos filhos? Fica.

O problema é não ligar o sintonizador de canais direito. Quer escutar rock e joga no pagode?! Não vai rolar, fia. Muda!