Citação

Rebeija-me… Poesia de mulher

Baise m’encor, rebaise-moi et baise ;
Donne m’en un de tes plus savoureux,
Donne m’en un de tes plus amoureux :
Je t’en rendrai quatre plus chauds que braise.

Las ! te plains-tu ? Çà, que ce mal j’apaise,
En t’en donnant dix autres doucereux.
Ainsi, mêlant nos baisers tant heureux,
Jouissons-nous l’un de l’autre à notre aise.

Lors double vie à chacun en suivra.
Chacun en soi et son ami vivra.
Permets m’Amour penser quelque folie :

Toujours suis mal, vivant discrètement,
Et ne me puis donner contentement
Si hors de moi ne fais quelque saillie.

Louise Labé


 

Beija-me mais, beija-me ainda e beija;
Dá-me um daqueles teus mais saborosos;
Dá-me um daqueles seus mais amorosos,
Dou-te outros quatro em brasa que flameja.

Ah! tu te queixas? Que este mal te seja
Paz ao te dar dez outros deliciosos.
Mesclando nossos beijos mais ditosos
Gozemos um do outro, o amor sobeja.

E vida em dobro cada um terá;
Em si e no amante cada um viverá.
Permite, amor, pensar esta loucura:

Sempre estou mal, em discrição vivendo,
E não me posso dar contentamento,
Se de algo fora eu não for à procura.

Do livro Poetas franceses da Renascença, traduzido por Mário Laranjeira.

Morrer na praia

“Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele, e da sua garantia que não havia pressa (…). Amor e paciência certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades.  (…) É assim que todo curso de uma vida pode ser desviado – por não se fazer nada. Na praia de Chesil, ele poderia ter gritado o nome de Florence, poderia ter ido atrás dela. Ele não sabia, ou não teria querido saber, que, enquanto ela fugia, certa na sua dor de que o estava perdendo, nunca o amara tanto, ou mais desesperadamente, e que o som da voz dele teria sido seu resgate, e que ela teria voltado atrás. Em vez disso, ele permaneceu num silêncio frio e honrado (…).”

Na praia, Ian McEwan

ChesilEm quantas situações já não desistimos antes da hora? E o quanto essa ação pode influenciar e ter consequências em nossas vidas?  Esse post está na categoria do desabafo porque  o ambiente parece captar as energias dos nossos pensamentos e sentimentos. Ficamos com uma cisma na cabeça e aquilo não sai. Outros estímulos vêm para alimentá-la – um livro, um filme, uma música, uma frase perdida na rua. Foi igual quando vi filme Her. Seria uma sincronicidade.

Na praia é um romance que conta a história de dois jovens ingleses, Edward e Florence, que vão ter sua noite de núpcias. É na década de 60 e eles são inexperientes e inibidos. O ponto de vista de cada um deles é esmiuçado, e a partir daí vamos conhecendo os medos, as inseguranças, o nojo, o orgulho e outros sentimentos que aquele evento provoca. É mostrado também o jogo entre o que é represado, para ser aceito, para não frustrar as expectativas do outro, para enfrentar o desconhecido, e o que é revelado, para se colocar, para mostrar seus anseios, mostrar sua personalidade, mostrar que se é adulto. Mas é mostrado sobretudo o quanto cada um, a sua maneira, ama o outro.

E dá raiva quando eles destroem tudo a partir de um único evento. Eles não se acertam e a comunicação falha entre eles embaça ainda mais o conflito. A “solução” é seguirem caminhos opostos e distantes, o mais rápido possível. O livro dá uma acelerada no tempo (o que dá raiva também…) e o que se nota é que as lembranças dos sentimentos se apuram e não se apagam com o tempo.


 

Opus 18 de Beethoven

Link

Ser tudo que EU quero

Essa semana, a praça do povo virtual chamada facebook, trouxe ao debate alguns textos sobre a nossa atual geração de mulheres. Como esse é um blog de mulheres cismadas, nada mais coerente eu cismar e contribuir aqui com alguns comentários sobre o assunto (convém ler os textos antes).

Seguem abaixo os links para os textos originais:

A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer

À espera da geração de mulheres que não se importam com o que os homens querem

Ei, Ruth

A incrível geração de mulheres chatas

 


Hmm ainda não faz sentido… É que não dá pra colocar tudo na mesma panela, tem quem viva no passado, mas tem sim aqueles homens e mulheres que estão vivendo no tempo presente, que se adaptam as (rápidas) transformações do nosso mundo.

Quando comecei a dar aula, me preocupava demais em “agradar” todos os alunos e me angustiava tentando. O fato é que isso é impossível. E na vida também é assim… Daí que por mais que a família, a sociedade, os amores, os amigos esperem sempre algo de mim, eu sou responsável pela minha história. Então não dá pra pautar as minhas ações nas expectativas alheias. Eles vão embora e eu fico, comigo, sozinha. O que não significa ser solitária e não se relacionar com ninguém.

Embora eu não seja a típica extrovertida, adoro conhecer gente do bem. Conheço homens admiráveis que não se encaixam em nada no rótulo de homens que não evoluíram. Não sou, nem quero ser, uma princesa (e quem quer ser, ótimo, que bom que é democrático o negócio). Tampouco ser convencional, seguindo fórmulas ultrapassadas e inúteis de ser a mulher perfeita (falando nisso, revistas femininas e blogs pra macho me dão vergonha alheia…).

Deve ser frustrante tentar ser alguém diferente pra agradar o outro. Porque por mais que o outro caia neste conto, é uma ilusão: o outro gosta de outra pessoa que você mesmo criou.  Agora, é legal quando você age sendo fiel aos seus princípios, seguindo seus desejos, mostrando quem você é, e daí vem alguém de fora apreciar exatamente isso que te faz único, que você ama tanto em você mesmo, não é? Nessa hora, eu percebo o quanto os homens estão mudados e são sim capazes de amar essa nova mulher. São escolhas pessoais. No fundo, ambos buscam o acolhimento, serem aceitos e amados como são. Uma hora cansa usar máscaras o tempo todo. Temos que aproveitar que estamos num tempo e espaço que permite a multiplicidade de escolhas. Quer ser piriguete? Vai. Quer ser mulher independente? Vai. Quer viver em outro país? Vai. Quer ser o cara que trabalha pra sustentar a família? Vai. Quer ficar e cuidar dos filhos? Fica.

O problema é não ligar o sintonizador de canais direito. Quer escutar rock e joga no pagode?! Não vai rolar, fia. Muda!

Status

My next lovoo

No aplicativo de paquera Lovoo existe um perfil com foto e questionário a ser preenchido. Embora exista um mecanismo de verificação por imagem (os modelos-capas-de-revistas fakes não tem vez), para as outras infos não há controle: casados são solteiros, solteiros estão enrolados, enrolados estão seriamente comprometidos… em enrolar mais alguém. O Photoshop pode limpar as marcas do tempo, viajar pra Paris e por um X3 na garagem. Ainda assim, nesse cenário de beleza e riqueza, sobrevivem os ginos-sinceros. Há quem poste a foto do natal, dizendo X, com roupa bonita pra ocasião; quem poste o álbum da última viagem; quem escolhe os melhores selfies do marketing pessoal – no ônibus, no banheiro, no espelho do quarto (desarrumado); quem põe o cachorro, o gato, o periquito.

Quem quiser pode mandar msg. Mas tem que segurar a ansiedade: só continua o papo se o outro responder! Ou pode mandar beijo (na boca, no rosto, no ombro). Ou marcar um coração. E quando dois coraçõezinhos batem mutuamente! Hmmm! Pode render… Papo, risada, raiva, choro, filosofada, sexo, amor, namoro, amizade.

Bem, isso me lembra um espaço de paquera “real”. Contudo, em baladas, barzinhos e festas – onde o encontro se dá voz a voz, cheiro a cheiro, pele a pele – coraçãozinho nenhum irá saltar em balão onomatopaico batendo mais forte pra você ver. Há de se arriscar, botar literalmente a cara a tapa. E arriscando, pode render… Os malas, os fakes, os sedutores, os interessantes e os fáceis estarão igualmente lá. O que surgiu foi um novo meio pra rolar a paquera. Nem melhor, nem pior – digital. Dependerá do uso que se faça dele (vide o príncipe desencantado a procura de suas tinderelas).

Passado X Presente

Antes & depois

Quem vê de fora, imagina que o grande cardápio de pessoas dispostas a se relacionarem promova a variação diária do menu. E onde estariam essas pessoas? O radar identifica que estão próximas. Mas, considerando que nem todo mundo aderiu ao app, o potencial de paqueras por metro quadrado aumenta. Ou seja, se quantidade é o critério, fora do app também estamos ao alcance de muita gente que quer se relacionar (não estão expostas, mas estão por aí). O cardápio existe em toda parte, basta procurar. Quem deseja sair toda semana com alguém diferente, vai buscar em qualquer meio. E faz bem em fazê-lo, não é digno de censura quem age seguindo suas vontades (dentro das normas sociais, claro). Quem busca um namoro também vai filtrar suas escolhas para conseguir o que quer. E assim vai.

Essencialmente, a tecnologia facilita os encontros e a comunicação. Assim como ter claro o que se deseja. Por ora, aprecio nutrir as boas relações, as que não geram falsas expectativas, as que dão espaço pra trocar, ouvir, falar, ficar em silêncio. Enfim… Sei que trabalhamos e fazemos mil atividades ao longo do dia. Não sobra muito tempo para nos dedicarmos ao outro. Mesmo assim damos aquele jeitinho brasileiro! No fundo, sair dando X, excluindo o outro a torto e a direito nos faz merecedores de outro X. Ninguém é alguém na duração de uma olhada pra conquistar. Alguém surge na duração sem hora marcada pra terminar.

Vídeo

Ela

Instigada tanto pelo histórico do cineasta Spike Jonze, diretor de Quero ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), quanto pela temática amor e tecnologia, fui conferir e me deixar levar pelo filme Ela. A sinopse é precisa: o relacionamento amoroso entre um homem e seu sistema operacional. História pouco crível a princípio, mas que se desenvolve sobre bases conhecidas de um relacionamento pessoa-pessoa convencional. Essa estranheza, de um amor improvável entre homem e máquina, provoca uma reflexão: o que nos leva a nos apaixonarmos por alguém? É o interesse constante do outro em nosso universo particular? É o compartilhamento de momentos, segredos e pensamentos? É a voz? É o corpo? Ou é o que a nossa imaginação deseja acreditar?


Título Original: Her
Ano: 2013
Diretor e Roteirista: Spike Jonze
Elenco Principal: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson
Site: http://www.herthemovie.com

Citação

Se o capitão Lampião

Se o capitão Lampião quisesse eu para muié, me danava com ele pelo mundo até morrer.

Maria Bonita – Representante Cis do cangaço.

Maria Deia era casada com o sapateiro Zé de Neném quando cismou com o Lampião. Mas era como se não fosse, dizia ela. Zé de Neném não desempenhava lá muito bem seu papel de marido. Foi de papo com um dos homens de confiança de Lampião, ali mesmo na sapataria de seu marido, que Maria Deia  comentou que estava a fim do maior cangaceiro do sertão.  Lampião soube que havia uma moça bonita interessada nele e foi conferir. Não perdeu tempo e a levou pra junto dele. A partir desse episódio, outros cangaceiros puderam levar suas mulheres para junto do bando. Nível de satisfação aumentada, o grupo crescia e se fortalecia ainda mais.

Maria Deia virou a Maria Bonita de Lampião. E os dois viveram e morreram juntos alguns anos depois…


CAPA-AMORES-PROIBIDOSAmores Proibidos na história do Brasil
Maurício Oliveira, Editora Contexto – 2012