Status

Dialeto expirado: o ponto final da relação

Quando acaba uma relação, morrem também todas as palavras inventadas, os símbolos resignificados, a gramática particular. O luto é sentido na garganta. Naquela hora que engole seco porque ninguém mais vai entender se você falar. Pode até começar a ensinar por aí. Mas não é o mesmo: o belo do dialeto dos enamorados é ser único, vivo, criado a dois, para os dois. Soa falso se alguém usar. Chega a ser traição usar o mesmo vocabulário na próxima relação. Dói. Racionalmente já se sabe que acabou, porém, sentir que virou língua morta, é o fim prático do relacionamento. É hora de recomeçar, tudo novo de novo: do oi ao adeus, do ciao ao ciao.

Uma tentativa de versão em inglês (podem me corrigir com carinho):

When a relationship ends, also die every word, every symbol, all the grammar invented throughout of this. Grief is felt in the throat . At that moment when we stop talk because no one else will understand if we say it. You can even start teaching this idiom to someone else. But is not the same: the beautiful of the dialect of love is to be unique, full of life, created by the couple only for them. It looks fake if anyone else use it. It becomes treason use the same vocabulary in another relationship. It hurts. Rationally it’s known that the relationship it’s over, however, feel the end of this language it’s the practical end of everything. It’s time to restart all over again: from hi to goodbye, from ciao to ciao.

Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won’t do
In this life that we live we live we only make do

 

Até a hora acabar

PastaEscolhas sempre me consomem: tempo e reflexão. Não importa se é pra decidir entre penne ou spaghetti, cabelo preso ou solto, gafieira ou tango, Itália ou Brasil, trabalho ou estudo, namoro ou amizade, livro clássico ou contemporâneo, meu cérebro começa a analisar vantagens e desvantagens de cada opção. Vai logo, Andrea, você ainda não escolheu? A sua carona está chegando e o cabelo nem está pronto! Se você não gostar deste livro, depois você troca ou pega outro, não vai morrer por causa disso. E assim vou brigando comigo mesma porque joguei fora tempo que não tem raccolta differenziata e não volta.

Percebi também que eu vou pra um mundo paralelo das decisões. Esqueço que tenho um corpo, que está num lugar, que sente o cheiro, que escuta, tem frio, calor. Eu não estou ali. Viajei pra longe. Mas a signora do caixa está ali, me aspettando impacientemente. “Signora, ho chiamato tre volte! Il supermercato chiude alle otto e mezzo!” (ou algo assim…). Sim, minha gente, eu fui a última a sair, com dois vidros de azeitona na mão – qual marca é melhor, dio mio?

Lógico que nem tudo fica restrito a duas escolhas, ou isto ou aquilo, e nem tudo depende só da minha decisão. Se eu não passo na seletiva da universidade, não tem como me inscrever. Ei! Mas se você, Andrea, realmente quiser, pode se preparar e tentar de novo! yayyyyyy! E assim vou me motivando a seguir em frente.

Però… quando decidimos “sim, eu quero!” e o outro diz não, ou não posso, ou talvez, ou ainda não… vem aquela angústia a travar aquele passo a frente, a encher a cabeça de mais dúvidas e indecisões ainda. Naturalmente vem o impulso de tentar convencer o outro. E assim vou me culpando por não conseguir, não ter a estratégia certa, na hora certa. Percebi que vou perdendo energia até não querer mais. Meu cérebro, senhor de mim, diz que não faz sentido, que perde-se o encanto se for tudo um jogo, uma receita de bolo, um quiz de revista pra saber se você é legal, um post de 10 dicas pra descobrir se o outro é um serial killer.

Fico pensando que voz teria a signora a avisar que a hora acabou, que tem que fechar. E hoje só amanhã.

 

O valor do beijo roubado

confete_carnaval_mulheres2015 Festa, alegria e diversão: essa é a imagem do carnaval. Mulheres e homens celebram a liberdade vestindo suas fantasias prediletas! O prazer está no ar.

Sim. A gente encontra esse clima maravilhoso. E também se depara com alguns velhos problemas – o lado feio da festa. Que muitos escondem, ou fingem não compreender.

Quem nunca viu homens que puxam os braços das mulheres, forçando uma situação? Homens que passam a mão na bunda delas sem consentimento, persistem na investida mesmo depois de dois ou três “nãos” verbalizados por elas?

Talvez você não seja esse homem abusivo – e por não ser assim, acredita que nenhum outro homem o seja. Talvez você não tenha presenciado nada parecido. E aí, você se conforta e ainda coloca em dúvida relatos de mulheres que passam por esses constrangimentos.

Pois bem, lamento informar: os constrangimentos de carnaval existem. E esse lado escuro é bem visível para nós, mulheres. A gente até elabora estratégias para tentar se proteger dos assédios. Dependendo do lugar a gente vai de calça, pra se proteger da “mão boba”. Dependendo do assédio a gente não solta um “não” em alto em bom som, porque o cara pode estar armado. A gente diz que tem namorado, para ver se a pessoa se convence do nosso “não”. A gente diz que é lésbica (!). A gente tem um estoque de respostas diplomáticas pra poder dizer não sem ferir o ego daquele que pode se voltar ainda mais violentamente contra nós.

A gente nunca sabe como ele reagirá a uma negativa de uma mulher em pleno carnaval.

– Sim, estou sozinha. Não, não quero nada com você.
– Mas é carnaval! Se queria ficar sozinha, que ficasse em casa.

Quantas vezes já ouvimos esse diálogo? Precisamos explicar que carnaval não é consentimento automático para qualquer situação? Que lugar de mulher é onde ela quiser, com quem ela quiser? Que o corpo é da mulher? Precisamos explicar sim. Em todos os momentos. Porque ainda existem aqueles que, no auge da festa, tentam roubar beijos. Isto é: beijar a mulher mesmo quando ela não quer. Como se fosse a coisa mais romântica e natural do mundo.

– [chamando o segurança] Tirem esse cara daqui!

– Sorria, é carnaval! Vai reclamar de beijo agora?!? Tá Louca! Tá no carnaval e não quer beijo?

E há quem defenda beijo roubado como uma “liberdade poética” da qual não se pode abrir mão. Essa expressão “beijo roubado” é encontradas em músicas populares, teatro, novela e filmes diversos. Há toda uma cultura que envolve a situação de “beijo roubado”, expressão que hoje é empregada até para se referir a beijos consentidos!

Vejam só que interessante! Mudam os costumes, mas a palavra está lá, guardiã de um comportamento que já deveria estar morto e enterrado. Parece que o “beijo roubado” é uma cultura tão valorizada, que mesmo quando ele nem é tão roubado assim, a expressão continua existindo, como uma espécie de última trincheira. Parece que já nasceram aprendendo que beijar roubado é que é bom, e não querem desaprender isso.
Desconfio que ainda não sabem que beijo consentido tem muito mais valor. Hoje, em 2015, tem muito mais valor um beijo livre e consentido.

Mas isso é uma cisma minha. Cismei com o “beijo roubado” em si – que é crime, por sinal. Cismei com o termo romantizado, que não é crime, mas não o utilizo. Nunca gostei deles. Se eu pudesse eu me livraria dos dois. Agora se tem gente com dificuldade de abrir mão de utilizar a expressão “beijo roubado” para se referir a um beijo livre e consentido, imagina como deve ser duro abrir mão desse (mau) comportamento.

Em tempo:

1. As mulheres conseguiram duas grandes vitórias neste carnaval: pressionaram e retiraram a propaganda da Skol de circulação e retiraram a propaganda do Ministério da Justiça. Ambas foram consideradas inadequadas para o público feminino, que já sofre diversas violências no período de carnaval.


2. Roubar beijo é crime: Homem foi condenado a 7 anos de prisão por beijar uma mulher à força no carnaval 

3. Texto importante para ilustrar o quanto é complicado dialogar sobre esse tema com algumas pessoas: Carnaval e a trivialização da cultura de violência contra a mulher

4. É evidente que mulheres também podem cometer o crime de roubar beijos. Mas este é um comportamento pouco frequente, se levarmos em conta qualquer estatística ligada à violência.

Nota

Elas estão descontroladas

Uma flor fora do jardim

Uma flor fora do jardim

Deveria ser uma pessoa na política. Mas é pessoa-mulher na política. Querem te convencer de que pessoa-mulher é pessoa (só pessoa), que é gente, que recebe tratamento igual aquele que, não por acaso, existe em maior quantidade no ambiente político, a pessoa-homem. Mas eu cismei que não existe essa pessoa genérica.

Quando o homem é candidato e está acusando alguém publicamente de um crime, crime este que sequer foi julgado, qual xingamento lhe é dirigido? “O senhor é um caluniador!”. É uma palavra precisa: caluniar é acusar alguém de ter cometido um crime, sem que essa pessoa o tenha feito (ou ela até pode ser criminosa, mas não passou pelo processo legal que a “condene”).

Quando mulher é candidata, caluniadora não é a primeira palavra lembrada. No debate dos presidenciáveis exibido na televisão, certa candidata foi chamada de “leviana”, acusação que veio acompanhada com um dedo em riste. “Leviana” tem ampla gama de significados – volátil, frágil… Sinto o cheiro da condescendência no ar! Essa pessoa nunca é só “caluniadora” – ela tem que ser também frágil, inconsistente, quase que uma criança que não pode ser levada a sério, tem que ser… MULHER!

Mas… Tudo isso talvez seja uma teimosia infundada. Vamos mergulhar no mundo dos comentaristas de portal (não sei onde eles se reproduzem, só sei que são muitos). O que eles dizem a respeito da candidata pessoa-mulher que resolveu reagir ao insulto “leviana-dedo-em-riste”? Aí é que o crime ocorre: ela foi julgada como DESCONTROLADA. E ao candidato pessoa-homem nada acontece, feijoada.

Pessoalmente nunca vi esse adjetivo – descontrolada – ser usado contra homens que reagem a algum tipo de acusação política. Porque uma pessoa-homem descontrolado – veja – é apenas um homem. Talvez um homem ousado, vá lá. Corajoso por reagir a um insulto, talvez.

Agora vai procurar no dicionário o significado de mulher ousada. Vai lá. Ainda ando cismada: quando me chamam de descontrolada na política é porque sou corajosa ou ousada?

Morrer na praia

“Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele, e da sua garantia que não havia pressa (…). Amor e paciência certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades.  (…) É assim que todo curso de uma vida pode ser desviado – por não se fazer nada. Na praia de Chesil, ele poderia ter gritado o nome de Florence, poderia ter ido atrás dela. Ele não sabia, ou não teria querido saber, que, enquanto ela fugia, certa na sua dor de que o estava perdendo, nunca o amara tanto, ou mais desesperadamente, e que o som da voz dele teria sido seu resgate, e que ela teria voltado atrás. Em vez disso, ele permaneceu num silêncio frio e honrado (…).”

Na praia, Ian McEwan

ChesilEm quantas situações já não desistimos antes da hora? E o quanto essa ação pode influenciar e ter consequências em nossas vidas?  Esse post está na categoria do desabafo porque  o ambiente parece captar as energias dos nossos pensamentos e sentimentos. Ficamos com uma cisma na cabeça e aquilo não sai. Outros estímulos vêm para alimentá-la – um livro, um filme, uma música, uma frase perdida na rua. Foi igual quando vi filme Her. Seria uma sincronicidade.

Na praia é um romance que conta a história de dois jovens ingleses, Edward e Florence, que vão ter sua noite de núpcias. É na década de 60 e eles são inexperientes e inibidos. O ponto de vista de cada um deles é esmiuçado, e a partir daí vamos conhecendo os medos, as inseguranças, o nojo, o orgulho e outros sentimentos que aquele evento provoca. É mostrado também o jogo entre o que é represado, para ser aceito, para não frustrar as expectativas do outro, para enfrentar o desconhecido, e o que é revelado, para se colocar, para mostrar seus anseios, mostrar sua personalidade, mostrar que se é adulto. Mas é mostrado sobretudo o quanto cada um, a sua maneira, ama o outro.

E dá raiva quando eles destroem tudo a partir de um único evento. Eles não se acertam e a comunicação falha entre eles embaça ainda mais o conflito. A “solução” é seguirem caminhos opostos e distantes, o mais rápido possível. O livro dá uma acelerada no tempo (o que dá raiva também…) e o que se nota é que as lembranças dos sentimentos se apuram e não se apagam com o tempo.


 

Opus 18 de Beethoven

Desabafo – Janeiro 2014

Li muitos posts para mim ontem, escreveram que sou especial e preciso ter calma e pé no chão, li que haverá um parceiro em algum lugar, será meu molde e nós seremos felizes.

O seguro morreu de tédio.

Sei que sou especial e mereço ser valorizada ao máximo, que não mereço desprezo, que não mereço passar a sexta-feira inteira esperando que aquele carinha lembre que marcou comigo um jantar e me ligue. Sei que sou uma garota super supimpa e mereço que todas as minhas mensagens enviadas sejam respondidas com carinho e amor em retribuição, afinal as que envio são recheadas de boas intenções, safadas as vezes, mas sempre do bem.

O que ninguém me disse é como suportar ou superar o vazio enorme que sinto, a falta que eu sinto de alguém me tocar, beijar, apertar e afagar. Como conviver com tantas borboletas que tenho no estomago sem nenhum motivo para se agitarem? Todas quietas no fundo esperando ansiosas para se agitarem violentamente, me fazer parar como estátua diante de uma daquelas surpresas inesperadas, como aquelas cenas ao melhor estilo dos filmes românticos mais “mamões com açúcar” já vistos.

Ontem eu passei um bom tempo sentada na minha cama, chorando sem parar, fazendo cafuné em uma das almofadas que tem uma textura muito gostosa. Não chorando porque não recebi aquela mensagem ou aquele convite, chorando porque me sinto só, porque há um vazio dentro de mim que não sei explicar e não consigo preencher, nem sei se é espaço para um romance ou para aventuras.

Creio que assisti tantos filmes da Walt Disney, com tantas princesas que sofrem e depois encontram seus príncipes encantados, que fundi meu cérebro.

Fiquei grávida aos 17 anos, paguei minha faculdade sozinha, casei, me divorciei, montei uma casa com muito esforço, tive vários empregos, sempre me adaptei ao que pediram, nunca recusei pegar um extra, dormi menos que várias pessoas que sofrem de insônia (eu não sofro disso, minhas pálpebras tentam se encontrar toda hora…), corro para qualquer lado, escuto qualquer proposta, driblo pré-conceitos toda semana… CADE MEU PRÍNCIPE!?!?!?!?!?!

Ok, ok, eu preciso me centrar em eu mesma, ninguém irá mudar minha vida por mim, eu preciso me lembrar que acontece na minha volta o reflexo do todo, que sou uma guerreirinha e posso tudo em que me esforçar.

Mas ontem eu só queria um beijo.

Uma noite de carinho, de alguém que me vê como especial, de alguém que pode me dar a mão e me acompanhar pela vida toda. Fato, o Antônio não é esse cara, o pediatra também não, assim como não era o jornalista e nem o carinha de branco no bar da Vila Madalena. Também não é engenheiro gaúcho de Florianópolis, nem o João casado e safado… Nem o jovem Miguel que me fez dirigir até o limite da cidade para deixa-lo na casa da mãe.

Mas ontem eu só queria um beijo.

Seria cômico se não fosse comigo.

Aceitaria ficar com a maioria deles desde que esse vazio diminuísse, para não me sentir tão só, para as borboletas se agitarem quando o telefone tocar, para sorrir com uma mensagem boba, para me sentir desejada, para qualquer coisa, menos me perceber chorando sem parar alisando uma almofada, com um peso gigante de algo vazio.

Vou retomar os projetos para 2014, estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, viajar com meu filho, baladas com as amigas, preencher este vazio de coisas que estão ao meu alcance de fazer, que só preciso contar comigo mesma.

Mas como ontem, eu só queria um beijo, sei que tudo isso irá para segundo plano assim que chegar uma mensagem qualquer no meu celular.